“É incrível. Jamais na vida pensei que jogaria a final deste torneio. Vim a Buenos Aires para jogar um dois encontros, muito tranquilo, e tive de lavar roupa duas vezes e acabei a pedir cordas emprestadas ao Guido Pella para jogar e fiquei até domingo. Foi uma semana incrível”

Estas foram as palavras bonitas e emocionadas de Pedro Sousa após a derrota na final do ATP 250 de Buenos Aires. Palavras quase descrentes do que tinha acabado de acontecer. Pedro Sousa vai completar 32 anos em breve e tinha participado em 24 torneios ATP até aqui. Em nenhum deles tinha sequer ganho 2 encontros consecutivos. Estava desde 2007 a levar na cabeça no principal circuito do ténis masculino. O seu desabafo é bonito e, acima de tudo, compreensível.

Seria interessante ainda assim perceber se Pedro Sousa alguma vez na sua carreira acreditou genuinamente que tinha nível para chegar ao último dia de prova de um torneio ATP. Que terá sonhado? Certamente. Que acreditou que conseguia lá chegar? Só ele poderá dizê-lo. Esta dúvida é ainda mais fascinante porque qualquer espectador mais atento e seguidor da modalidade sabe que o Pedro sempre teve todas as ferramentas por conseguir. Talvez tenha tido até ferramentas que quase mais nenhum tenista português teve.

Nuno Marques, atual treinador da Academia de Rafael Nadal (onde o adversário da final Casper Ruud está baseado e onde melhorou imenso) e antigo capitão da Seleção Nacional, afirmou uma vez que João Sousa estava num patamar diferente dos outros porque o João sabia e sabe o que é “bater nos grandes.

Esta expressão parece simples, mas é muito mais complexa. O João é um fenómeno completamente oposto ao que é o paradigma do ténis português. Quando o João está a ser superiorizado ele não pensa “este tipo é melhor que eu”, ele pensa “mas quem é este gajo? Eu sou melhor que ele”. E não é fácil, aliás, é o mais difícil. No ténis 99% dos tenistas perdem todas as semanas. Jogam sozinhos e têm que se habituar a lidar com a derrota. E estar acostumado a isso sem perder a ambição e aquela teimosia positiva de não dar o braço a torcer requer personalidades raras e distintas.

“Vou ver como recupero para o Rio, mas estou contente por ter jogado a minha primeira, e talvez última, final

Pedro Sousa, emocionado, na cerimónia de entrega de troféus do Argentina Open

Pedro Sousa é um exemplo disso mesmo. Foi tantas vezes ao cântaro sem sucesso que deixou de acreditar que a fonte tinha algo para ele. A vida (ou o ténis) deu-lhe a oportunidade de mostrar que as coisas não são bem assim e que, como dizia António Gedeão, “o sonho comanda a vida” e é esse sonho tantas vezes inalcançável que constrói a carreira de um tenista.

O que Pedro Sousa precisa de retirar de uma semana destas não é a “sorte” (o que é isso?) que teve, ou o “alinhamento dos astros” que tantas vezes referiu. Precisa sim de entender que tem nível para andar nestes corredores e que o trabalho que irá realizar a partir de agora tem de ser para continuar a voltar a situações como as que viveu esta semana. Porque nunca é tarde demais.

Esta bonita história foi um espelho que nos permitiu ver porque é que João Sousa é tão distinto dos outros e o que é que falta aos restantes para lá chegar. O ténis sorriu ao Pedro, mas existem muitos outros casos semelhantes. Antes de João Sousa tivemos uns pequenos primeiros passos de Frederico Gil (e antes disso de Nuno Marques e João Cunha e Silva), muito talvez devido à sua irreverência e ingenuidade do que acontecia à sua volta, o que permitiu mostrar a quem se seguiu que as coisas eram possíveis.

Pode até ter sido a última final ATP da carreira de Pedro Sousa, evidentemente, mas o caminho certo a percorrer é fazer todos os possíveis para que assim não tenha sido porque, certamente, o Pedro viveu momentos esta semana que adoraria repetir.

O ténis português vive de aprendizagens. Que se aprenda com o melhor e o pior de João Sousa, tal como com Pedro Sousa para formarmos melhores e mais preparados atletas de alto nível no futuro.

Uma opinião sobre “Uma história bonita para refletir

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