[Créditos fotográficos: Raquetc | Porto Open]

Ao longo das últimas semanas assistimos a vários testemunhos de como sobrevivem os agentes do ténis nestes tempos extraordinários e entramos agora numa fase de planeamento de como se pode salvar a modalidade, seja a nível nacional ou internacional. No entanto a real situação de milhares que compõem a modalidade interacionalmente é na verdade totalmente incerta e cada dia a aguardar decisões é mais um dia de crescentes incertezas nos atletas.

Por isso mesmo o Ténis em Português foi em busca de ouvir um pouco mais desse lado para tentar trazer o mesmo à tona da conversa. O objetivo? Dar voz e perceber que caminhos podem ser tomados e como pensam e vivem agentes tão diferentes: jogadores mais experientes, do circuito masculino e feminino, quem vive numa fase de transição para o profissionalismo e como gere um Diretor de um clube de ténis tudo isto. Para isto chegamos à fala com Gonçalo Falcão (top-500 ATP em pares), Inês Murta (top-700 WTA), Manuel Gonçalves (campeão nacional sub-18) e Ricardo Costa (Diretor Técnico do Clube de Ténis de Peniche onde se formou Tiago Cação). As respostas exemplificam bem o quão diferente é o cenário para cada atleta e como cada situação requer uma análise específica.

A realidade não é bonita, não se restringe apenas a treinos em casa, mas o ténis como o conhecíamos pode estar no fio da navalha e Gonçalo Falcão, por exemplo, confessou-nos que está a equacionar o final precoce da sua carreira. Um de muitos, como o próprio antevê e nos explica de seguida. Começamos então inicialmente por conversar e verificar a posição dos principais obreiros da modalidade: os tenistas.

P: A pandemia COVID-19 tem influência direta na carreira?

Gonçalo Falcão: “Para já não alterou nada mas muito diretamente está um bocado pendente se volto ou não a jogar, porque estou com a idade que estou [32 anos] e obviamente vai-se tornar mais difícil voltar a ficar em forma, especialmente na parte física, mas também pela razão monetária. O dinheiro não entra, literalmente. Tenho a ajuda da minha mãe mas não se fazem milagres. As razões são acima de tudo monetárias, porque motivação não falta. Ainda que não tenha deixado de treinar, faço 2 treinos físicos por dia. Vamos ver quando volta, em que condições e aí vou ver e tomar uma decisão mais concreta”.

Inês Murta: “Honestamente não é a primeira vez que fiquei parada forçadamente dos treinos de ténis. O que diferencia desta vez é que estamos todos nesta situação incerta, não sabemos quando vamos poder voltar a treinar normalmente ou competir, certamente para mim esta pandemia fez-me repensar acerca de assuntos muito além do ténis”.

Manuel Gonçalves: “O impacto que vai ter em mim acho que vai ser igual ao de todos. Todos estamos a sofrer bastante, porque não podemos jogar, e estar este tempo todo sem jogar vai fazer com que o rendimento seja mais baixo, haja menos nível. O importante é continuar a fazer exercício físico, de modo o nosso corpo estar preparado para quando voltarmos a competição. Aos poucos vamos todos encontrar o nosso ténis, e voltaremos todos ao nosso melhor nível. Se vai afetar o meu futuro? Creio que sim, porque tinha a minha ida para o college [n.d.r.: bolsa de estudos para os USA] planeada em Agosto, mas agora tive de adiar para Janeiro. São acontecimentos que ninguém espera, é injusto para todos.”

P: Que soluções podem ser tomadas para evitar consequências desastrosas nas carreiras de cada um?

Gonçalo Falcão: “É complicado. Todos vão passar mal. Não são só os jogadores, são os treinadores, são os clubes, são as famílias dos jogadores. Há diferentes casos, como é natural, mas acredito que, infelizmente, vai haver gente que vai deixar de jogar. Acho que vai demorar regressar à normalidade. Primeiro há que ajudar os clubes. Sem clubes não há sítios para jogar. A partir daí é uma bola de neve, os jogadores vão ter que ser ajudados de alguma maneira, seja monetariamente de forma direta ou em termos de torneios com mais prémios monetários.

Agora com aquele fundo que o Djokovic, Federer e Nadal estão a querer criar é mais uma opção. É uma excelente oportunidade para quem tem realmente dinheiro se chegar à frente. No caso da ITF é uma oportunidade de ouro já que nunca o fizeram antes, infelizmente foi preciso uma situação destas para acordarem. O problema não é dar 10 mil dólares até aos 700 melhores. É uma grande ajuda, para alguns é quase um jackpot, mas não é isso que vai resolver os problemas a fundo. Os jogadores com pior ranking vão continuar a receber mal, vão continuar a ter muitas dificuldades em jogar. Para lá dos 700 não tenho a menor dúvida que vai haver muita gente a deixar de jogar. É uma excelente iniciativa, mas está mal distribuída. Não faz sentido todos receberem o mesmo e os que estão a 900, a 1000, não receberem. Dá trabalho mas há que fazer algum estudo e distribuir melhor o dinheiro.”

Inês Murta: “Na minha opinião neste momento acima de tudo temos que ser cidadãos conscientes e responsáveis. E tentar na medida do possível e responsavelmente continuar a nossa atividade física. Mesmo dentro das limitações atuais existe sempre coisas que podemos melhorar seja psicologicamente ou fisicamente.

No entanto vai ser fundamental o apoio tanto da WTA/ATP/ITF e da Federação Portuguesa de Ténis, seja monetário como (quando a situação melhorar) a implementação de medidas para o retorno progressivo das competições. Acho que esse retorno vai passar muito por um circuito nacional, logo o comportamento da nossa Federação vai ser crucial para o ténis português.”

Manuel Gonçalves: “Acho que quando isto melhorar, a federação devia criar torneios não oficias, como a Alemanha, Áustria e Espanha estão a pensar fazer, com prize money envolvido. Selecionava alguns jogadores profissionais e outros não profissionais, de modo a ajudar financeiramente os jogadores. Os jogadores precisam de apoio, porque nesta altura não têm rendimentos nenhuns. Um apoio da federação era essencial de modo a voltarmos ao ativo com a máxima força. Estes torneios não envolveriam espectadores, de modo a haver o menor risco de contágio e expansão do vírus possível.”

P: Assumindo que o objetivo é ajudar e preservar a modalidade, quais as melhores medidas a tomar? Que prioridades devem ser dadas na tomada de decisões?

Gonçalo Falcão: “Acredito que a Federação esteja a trabalhar por encontrar soluções. Imagino que vá passar por haver torneios cá em Portugal com prize moneys maiores, porque houve dinheiro que não foi gasto em Futures e Challengers. Sinceramente não acredito que vá haver torneios internacionais durante este ano.

Em termos internacionais a minha sugestão, e já falei com alguns amigos que jogam lá fora, e alguns não concordam comigo, acho que o dinheiro, se existem esses milhões, devia ser distribuído de forma diferentes. O principal problema aqui é: quem é que a ATP, WTA e ITF considera ser um jogador profissional. Se dão até ao 700 é porque consideram que a partir daí é “palha“. E serão esses que vão deixar de jogar. Se assumirem que a partir daí não são profissionais, então devem assumir publicamente que torneios Futures não são profissionais. Porque para mim, desde o número 1 até ao último do ranking que tenha um ponto para mim são todos considerados profissionais.

Todos devem ser ajudados. Quem são profissionais ou perto de ser devem ser os primeiros ajudados porque são quem vive disto. Corre-se o risco de que quem vive disto sejam os primeiros a serem afectados. Se o dinheiro não entrar a curto prazo… acabou-se. É mesmo isto. Obviamente que mesmo quem não é profissional tem que ser ajudado, isso implica ajudar os clubes, porque nós [atletas] não vamos ter capacidade para manter o mesmo nível de despesas. São uma data de decisões complicadas. Não podemos perder os mais novos que estão a começar porque se não vamos ter mais um problema, vamos ter um buraco sem jogadores portugueses. Nunca toda a gente vai ficar contente. Cá já não somos muitos, há que agarrar os poucos que temos.”

Inês Murta: “Acho que vai começar um período complicado para toda a gente e em todos os setores. Numa situação normal já é bastante difícil e complicado seguir uma carreira profissional de ténis, nesta situação é ainda mais fundamental a implementação de medidas e o apoio financeiro para tanto os que querem seguir uma carreira profissional ou os que já são profissionais.”

Manuel Gonçalves: “Acho que devemos ajudar todos, tanto os profissionais como os que estão a tentar ser. Acredito que muito gente vá desistir do ténis, porque infelizmente o ténis é um desporto com grandes despesas, em que precisas de ser muito bom para teres rendimentos. Muitos jogadores vão deixar de acreditar e vão tentar seguir carreiras noutro tipo de áreas. O apoio da federação portuguesa de ténis será essencial para profissionalismo do ténis português, podendo na minha opinião contribuindo de várias maneiras, com Campos, bolas, etc. Sem uma ajuda vai ser difícil os jogadores prosseguirem com a carreira em Portugal, visto que o ténis não é um desporto de enorme categoria como o futebol. Os apoios não são os mesmos”.


Gonçalo Falcão foi um pouco mais longe e deixou mesmo uma ideia que, no espaço entre a nossa conversa e a publicação do artigo já se sabe que está a ganhar forma em Londres: torneios nacionais com elevado prize money à porta fechada mas com transmissão televisiva.

“Conhecendo bem como conheço o Coordenador Técnico Nacional [Rui Machado] estou seguro que tem existido imenso trabalho para isto voltar rapidamente e acho que é uma excelente oportunidade para aproveitar que o ténis, como é uma modalidade individual e deve regressar mais cedo, se mostrar e se dar a conhecer. É uma oportunidade para mostrar que temos mais bom ténis para além dos nomes mais conhecidos que proporcionam ótimos jogos. Pode parecer uma sugestão meio louca, o que eu não acho, mas acho que os canais televisivos estão sedentos por terem conteúdo e surgindo torneios cá em Portugal e mesmo até para jogadores como João Sousa, o Pedro Sousa e tantos outros será a única oportunidade que terão para jogar, porque não tentar colocar esses torneios na televisão? Porque na realidade não vão ter muito mais para transmitir”, concluiu.


Por fim fomos ouvir o lado de um treinador de ténis que também assume funções como Diretor Técnico do Clube de Ténis de Peniche, Ricardo Costa. Dar a voz a alguém que está do outro lado da intervenção permite também perceber que manter a positividade é um factor fundamental com um ponto chave: dar a mão aos clubes é dar a mão à modalidade.

P: O ténis é uma modalidade que, por norma, tem alguma dificuldade a recrutar nas idades mais jovens. Apesar de tal ter melhorado bastante nos últimos anos e ter criado confiança e atractividade para os mais novos, o COVID-19 terá impacto e consequências a esse nível futuramente?

Ricardo Costa: “Tendo a porta fechada impossibilita a entrada de novos jogadores e novos sócios. Tínhamos atividades agendadas que por norma ajuda-nos a angariar novos alunos mais jovens que desenvolvemos durante o 3.º período lectivo. Mas acredito também que quando a normalidade regressar manteremos novas entradas, não sei se muitas, mas mantenho o pensamento positivo. Acima de tudo acho que é importante que todos regressem.

P: Em conversa com tenistas realcei uma prioridade. “Segurar os clubes, porque sem clubes não jogamos”. O foco de reconstrução financeira da modalidade me Portugal deve seguir esse pensamento?

Ricardo Costa: “Eu acho que sim. É nos clubes que os atletas aprendem a jogar, onde jogam com amigos ou parceiros de treino, torneios sociais, torneios oficiais… Os clubes têm um papel fundamental e têm que estar saudáveis.”

P: Será inevitável assumir perdas na modalidade? Devemos assegurar o longo prazo ainda que se sacrifique o presente? Ou é possível manter o caminho que estava a ser feito?

Ricardo Costa: “Todos os anos perdemos atletas, por diversas razões. Porque não gostaram, por interesse noutras modalidades… É importante encontrar equilíbrio com novas entradas para compensar as saídas. É sempre importante assegurar o presente e o futuro.”

P: Como é que um diretor de um clube neste momento consegue projetar o futuro? Que planos podem ser elaborados para manter a sobrevivência financeira?

Ricardo Costa: “Nós desde sempre tentamos manter uma boa sobrevivência financeira. Claro que nesta fase é difícil, não há receita. Mas acreditamos que quando retomarmos a atividade teremos que procurar soluções para compensar esta fase em que o clube fechou. Vamos tentar garantir de todas as atividades que temos agendadas para a 2.ª metade do ano e vamos também tentar reagendar atividades que foram canceladas. Queremos manter a escola de ténis ativa, mas também queremos fazer um pouco mais porque consideramos que todas as outras atividades que fazemos são fundamentais para a sobrevivência do clube e consideramos que são importantes para o nosso público.”

P: Vemos neste momento propostas de distribuição igualitária independentemente dos rankings. É uma forma viável? Justa?

Ricardo Costa: “Acredito que este apoio para estes atletas faça toda a diferença, no entanto há que perceber se neste grupo de jogadores existem casos que possuem prize moneys de carreira muito elevados. Numa pesquisa rápida consigo encontrar jogadores com prize moneys acima de 4 ou 5 milhões de dólares ou até mais. É importante distribuir o apoio de forma justa, de maneira a que chegue a todos, principalmente aos que mais precisam.”

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